08/02/2009

Entre Homens e Generais (PARTE I)

Em outros tempos, em lugares distantes e inimagináveis aos habitantes da terra, um castelo no alto de uma montanha rochosa esconde uma prisão. Seus condenados sofrem além da privação da liberdade, a mais brutal tortura a tortura da própria consciência. Pagam pelo que fizeram de ruim quando em liberdade e em vida com um pequeno acréscimo pelo que deixaram de fazer em bondade. A diferença entre este lugar e a terra dos seres humanos, é que neste lugar seus habitantes não temem a morte, pois eles já estão mortos, sem a carne do corpo humano, apenas trajados de suas próprias almas que mais parecem trapos, uns não sabem nem mesmo de suas condições de almas, lapsos de memória devido ao ambiente e seus gritos de agonia, arrependimentos, e dores... Este lugar é especial, nele há somente os que cometeram grandes crimes de guerra quando em liberdade... Os que rebelaram-se, que cometeram crueldades, que arrastaram nações para a guerra sem um propósito nobre na defesa de seu chão pátrio e de seu povo.

O que se sabe sobre a vida e a morte, aquilo que está no conhecimento do povo na terra, difere um pouco da realidade no outro lado. O conceito de céu e inferno permanece, mas com uma pequena diferença... O inferno é um estado temporário de escuridão que a alma enfrenta, até que nasça ou re-apareça nela os germens da bondade e da resignação. Todas as almas já fraquejaram antes, até mesmo aquelas que já estão puras, sofreram em lugares de escuridão um dia. O criador da vida, não permite que um só de seus filhos se perca no caminho. Assim, a alma sendo a verdadeira propriedade da vida, nasce em um corpo de carne, morre, e renasce até encontrar o caminho reto e a perfeição. Aqueles que se dedicam a isso e obviamente alcançam a luz mais rapidamente, são encarregados de voltar ao lamaçal humano e desenterrar aqueles que se atolaram nele até os joelhos. Uns recebem missões a cumprir pelo pagamento de seus erros no passado, outros abraçam tarefas colossais, pois desejam ir ainda mais adiante em um tempo ainda mais curto.

Vou contar a história de uma dessas almas que criada há muito tempo na eternidade, viveu neste mundo e em outros, e assim como todos os seus irmãos e irmãs sofreu neste árduo caminho até a glória e a perfeição eterna, que por ele ainda não foi alcançado.

Amarrado a correntes colossais pelos pés, mãos e pescoço, preso a uma parede feita de restos de cadáveres humanos, estava Terzis. Capturado ha quase mil anos atrás, logo após tombar em um campo de batalha comandando um exército de mercenários. Faziam pilhagens, assassinatos e estupros pelo seu caminho, deixando uma trilha de medo e maldades. Seu caminho foi interrompido porque uma alma que muito amava Terzis tomou o fardo para si e o fez parar a força, matando-o em campo de batalha.  Como a ordem era apenas retirá-lo do mundo, a justiça foi feita por aqueles a quem ele impôs a dor no passado. Foi arrastado, recém desencarnado para esta prisão e desde o primeiro dia, está presto, da mesma forma que chegou mil anos atrás. O tempo na forma que conhecemos não é igual quando se está em outro mundo, para alguns as horas passam ainda mais rápido e para outros elas duram como séculos... Aos que sofrem as horas sempre são mais extensas.

Mas o sofrimento para o prisioneiro não é eterno, O Criador na sua infinita bondade permite-lhes a resignação, o arrependimento e sempre lhes dá uma nova chance de trilhar o caminho da retidão. Uma vez cumprida sentença, que leva exatamente tempo suficiente para que seu coração esteja disposto a reconhecer seus erros, ele é solto e pode novamente traçar o seu caminho, carregando em sua mente o peso de sua experiência e de seus sentimentos, os resquícios do que passou e da forma como terminou. Nenhuma dor é esquecida facilmente, mesmo para aqueles que já cumpriram com louvor o seu objetivo de arrependimento e resignação... Lembranças são como fantasmas, elas vem e vão a todo instante, e não há um só momento em que se consiga livrar-se delas, por este motivo antes de cometer um novo delito, a consciência uma vez consultada faz voltar ao coração às lembranças das pesadas penas, assim funciona a nossa consciência, nos protegendo e em algumas vezes nos repreendendo.

Terzis, havia se arrependido de cada alma que havia tirado a vida, cada maldade e cada delito... Ele estava em estado de transe ha quase quinhentos anos, vegetando e perdendo a forma humana, desfigurado, em trapos e deixando visivelmente os ferimentos de batalha aparecer meio a larvas e vermes. Havia perdido toda e qualquer esperança de recuperação, lembrava dos bons momentos que teve em suas várias existências e se entristecia quando notava que sempre as destruía de alguma forma, pelo seu forte gênio e calos morais. Pensava que nunca havia experimentado sequer um amor na vida, que não fosse de sua mãe, a mesma mãe em todas as suas existências, imaginava que fim ela haveria tido, onde estaria e se estaria bem, imaginava porque nunca havia recebido uma visita... Consolava-se porque talvez uma parte de sua dívida fosse essa. Pensava consigo mesmo que se um dia conseguisse a liberdade novamente a primeira coisa que faria seria procurar sua mãe e nunca mais deixá-la sozinha, ansiava por poder reparar a angustia que a teria feito sofrer, mas também sentia receio de que ela o teria esquecido. Certa vez, refletiu sobre todo o conhecimento de guerra que adquiriu ao longo de suas existências, tal conhecimento que agora reconhecia inútil, haveria caído em fins totalmente opostos e tudo o que tinha aprendido com a carreira das armas. Ser duro e suportar suas dores e sofrimentos, tal coisa lhe consolou durante tanto tempo, mas agora não podia mais suportar estar preso aquelas correntes sem sequer olhar para outro lado que não fosse em direção ao chão. Agora se sentia verdadeiramente morto... Acreditava que ninguém o faria erguer as pernas novamente, senão ele próprio.

Após mil e cem anos, recebe a visita de um ser ao qual não podia ver ou sequer sentir, tal alma o ficou observando por vários dias. Conversava com os mentores da prisão: - É a ele que busco, e a ele que tenho as ordens de levar comigo, as ordens são claras e partem diretamente do alto comando, devemos partir assim que ele estiver suficientemente forte para ficar em pé e andar, libertem-no.

Um dos carrascos entra em sua cela e lhe retira as correntes, Terzis em transe só percebeu o acontecido, dias depois. Tateando o chão, tenta mover-se em direção a saída, já não possui mais a visão em seus olhos e tem apenas uma vaga lembrança da luz, tateando durante dias, finalmente chega a uma grande escadaria, sobe com dificuldade e finalmente encontra-se a beira da saída, seus sentimentos estão confusos e ele está tremulo, não possui forças para continuar e desmaia. Foi então, carregado para fora e levado a uma pequena torre próxima, onde havia uma cama ao qual foi acomodado. Ainda que as feridas da alma tenham suas origens na mente do homem, sua cura também depende de cuidados físicos mesmo após a perda do corpo humano, a realidade das coisas varia de estado mental e neste caso agravado pela extensão da pena e das condições, ele precisaria de muito tempo para falar e andar novamente.

Já recuperado parcialmente os sentidos, Terzis agora conseguindo ficar sentado, já pode sentir o cheiro do campo que entrava pela janela e também a presença da luz próxima aos olhos, quando contemplava tão abençoado momento... Escutou uma voz:

Voz: - Terzis...

Vira sua cabeça assustado em direção a voz e fica apavorado. Pensa que vão lhe levar de volta para o buraco em que viveu todo aquele tempo... Enche seus olhos de lágrimas, não tem forças alguma para se defender e nem voz nas cordas para implorar.

Voz: - Terzis, depois de tanto tempo, fico feliz que finalmente tenha chego a sua hora, a hora de voltar a sua verdadeira vida.

Reconhece a voz que lhe fala, mas ainda não esta suficientemente forte para falar, as palavras simplesmente não saem da boca, ele sente uma alegria intensa, e chora pensando que fora abençoado pelo Criador por alguém que ainda lembra-se de seu nome...

                Voz: - Terzis, não fique assim, você não voltará aquele lugar, e eu estarei aqui ao seu lado até que você recupere a visão, a fala e volte a andar. Eu me chamo Ynos e lutei com você em muitas batalhas em um passado muito distante. Também recebi minha pena que não foi nada comparado a sua, mas enfim estamos juntos e livres novamente, agora nos resta recuperar o tempo perdido e o amor de nossas famílias deixadas pelo amor a guerra. Por agora era o que você precisava saber, quando novamente puder falar, então responderei suas perguntas. Agora descanse.

Terzis se emociona com as palavras e faz uma humilde oração ao Criador, agradecendo que o seu tempo finalmente tenha chegado, afinal foram longos tempos preso a uma parede que mais parecia um cemitério com restos humanos por todas as partes, do que apenas uma parede. Traz consigo agora muitas esperanças, vai poder ir atrás de sua mãe novamente e isso lhe da ainda mais forças para se recuperar mais rápido. Após alguns dias, Terzis recupera voz, e pode enxergar um pouco, se surpreende quando vê Ynos pela primeira vez, um velho amigo de muito tempo atrás. Imaginava como ele ainda pudera se lembrar de Terzis e lhe estar ajudando, ao questionar Ynos, diz que as ordens de vir buscá-lo partiram de planos mais altos e que foram bem claras. Nem tudo seria simples e haveria novamente algo a ser feito, ainda havia dividas a serem pagas por Ynos e Terzis, ao qual deveriam fazê-lo juntos. Além do que os dois foram convidados a participar de todas as grandes guerras que haveriam de acontecer na terra, como forma de pagar o débito por completo mais rapidamente, mas isso só poderia acontecer se Terzis também aceitasse. A alegria de Terzis era tão grande por novamente estar livre, que aceitaria qualquer condição, sua mente também o perseguia, afinal quando se faz o mal e se adquire a consciência do arrependimento por isso, se sente ao peito um desejo ainda mais forte de reparação. Partiram daquele lugar em uma manhã, dias de viagens por vales escuros e pântanos com seres de formatos estranhos e tenebrosos não intimidavam Terzis, no inferno em que ele havia vivido com o pior dos inimigos a lhe torturar, a própria consciência, havia o tornado tão forte e duro como uma rocha, e ele não haveria de fraquejar, pagaria o que deve moeda a moeda, seja qual fosse o preço, sua determinação e poucas palavras impressionavam Ynos.

                Ao chegar a um pequeno vilarejo, entraram em um tempo, Terzis ainda tinha as marcas dos seus ferimentos de mil anos atrás no corpo, e suas vestes ainda estavam em trapos, o que lhe sobrou da armadura. Mesmo após a morte do seu corpo, e o seu estado mental, sua alma ainda carregava a mesma aparência no dia em que foi morto. Detalhes do acontecimento haviam desaparecido com o tempo, mas isso não lhe fazia importar.

 

(continua).

 

 

2 comentários:

Minha vida em Textos disse...

Oi!!! Adorei seu comentário no meu blog... ele realmente será de grande valia em minha vida... vc tem razão... mas como fazer esta razão correr pelas minhas veias??? Enfim...
Continuarei sempre acompanhando
Forte Abraço...

NightCrawler disse...

Velho...isso ficou bom demais! Li tudo! O texto nos prende e nos transporta a um mundo que consegue, ao mesmo tempo, ser horroroso e maravilhoso! Muito bom mesmo cara! Parabéns!
Flw