13/09/2009

Epaminondas

"A terra acolhe homens bons e ruins, bravos e nobres; E também os covardes e desonrados, más a Glória dos Céus só abraça, os que são realmente colossais!" - Ynos


Primeira invasão do Peloponeso


Durante quase um ano depois da vitória de Leuctra, Epaminondas se ocupou na consolidação da confederação de Beócia, exortando a pólis de Orcomeno, que até então tinha estado alinhada com Esparta, que se unisse à Liga. No final de 370 a.C., contudo, dado que os espartanos comandados por Agesilau se encontravam lutando para disciplinar Mantineia, Epaminondas decidiu capitalizar sua vitória mediante uma invasão do Peloponeso que pusesse fim ao poder espartano de uma vez por todas. Forçou o passo através das fortificações no istmo de Corinto e marchou ao sul até Esparta, enfrentando contingentes espartanos e seus aliados ao longo do caminho.

Em Arcádia expulsou o exército espartano que ameaçava Mantineia, e logo supervisionou a fundação da nova cidade de Megalópolis e a formação de uma Liga Arcádia modelada à imagem da Confederação Beócia. Mais ao sul, cruzou o rio Eurotas, na fronteira com Esparta, que nenhum exército hostil havia chegado a atravessar antes na história. Os espartanos, que não desejavam enfrentar um exército tão massivo, se refugiaram atrás dos muros de sua cidade, enquanto os tebanos e seus aliados saqueavam a Lacônia. Epaminondas voltou rapidamente a Arcádia e logo retomou a marcha até o sul, desta vez até Messénia, território que havia sido conquistado por Esparta cerca de 200 anos antes. Reconstruíram a antiga cidade de Messene sobre o monte Itome, com fortificações comparadas às mais fortes da Grécia. Depois enviou uma chamada a todos os exilados messênios espalhados por toda a Grécia para que voltassem e reconstruissem seu país.

A perda de Messénia foi, particularmente, daninha para os espartanos, dado que seu território compreendia um terço do total de Esparta, e continha metade de sua população de hilotas.

Em poucos meses, Epaminondas havia criado dois novos estados inimigos de Esparta, havia atacado o alicerce de sua economia e devastado seu prestígio. Uma vez cumprido tudo isto, dirigiu seu exército vitorioso de volta para casa.

Juízo

Em sua volta para casa, Epaminondas não encontrou uma recepção digna de um herói, senão um juízo preparado por seus inimigos políticos. O cargo do qual se lhe acusava era de haver retido seu posto à frente do exército mais tempo do que se permitia constitucionalmente, o qual era indiscutivelmente certo: Epaminondas havia convencido ao resto dos Beotarcas para permanecer no campo de batalha por vários meses depois que seu cargo houvesse expirado, ainda que houvesse feito para poder cumprir tudo o que se havia proposto no Peloponeso. Em sua defesa, Epaminondas somente solicitou que, se fosse executado, a inscrição que aparecesse no veredicto dissesse:


Epaminondas foi castigado pelos tebanos com a morte, porque lhes obrigou a derrotar em Leuctra os lacedemônios, aos quais, antes que ele fosse general, nenhum dos beócios se atrevia a enfrentar no campo de batalha, e porque ele não só em uma batalha resgatou Tebas da destruição, senão que também assegurou a liberdade de toda Grécia, e trouxe o poder a sua gente a tal ponto que os tebanos atacaram Esparta, e os lacedemônios estavam satisfeitos de só conseguir salvar suas vidas; e não cessou a guerra até que, depois de reconstruir Messénia, encerrou Esparta em um duro assédio.

Batalha de Mantineia

Em vista desta oposição crescente ao domínio tebano, Epaminondas enviou sua última expedição ao Peloponeso em 362 a.C.. O principal objetivo da expedição era submeter Mantineia, que havia se oposto à influência tebana na região. Contudo, ao se aproximar de Mantineia, Epaminondas recebeu a notícia de que haviam enviado tantos espartanos para defender a cidade que a própria Esparta havia ficado quase indefesa. Vendo uma oportunidade, Epaminondas marchou até a Lacônia à maior velocidade possível.

A notícia da mudança de rumo de Epaminondas chegou ao rei Arquídamo III de Esparta através de um mensageiro, e este teve tempo suficiente para preparar a chegada de Epaminondas, que se encontrou com uma cidade bem defendida em sua chegada. Epaminondas, esperando que seus adversários tivessem deixado a defesa de Mantineia em sua pressa por proteger Esparta, voltou a marchar para sua base de Tegeia e enviou sua cavalaria a Mantineia, ainda que um encontro fora das muralhas com a cavalaria ateniense tenha frustrado, também, esta nova estratégia.

Vendo que seria necessária uma batalha de hoplitas para preservar a influência tebana no Peloponeso, Epaminondas preparou seu exército para o combate.

O que se produziu na planície em frente a Mantineia foi a maior batalha hoplita da história da Grécia. Participaram quase todos os estados gregos, de um lado ou de outro. Com Beócia se aliaram uma série de grupos, os tegeus, os megalopolitanos e os argivos entre eles. Do lado de Mantineia e Esparta estavam também os atenienses, elisanos e muitos outros. As infantarias de ambos exércitos eram de 20.000 a 30.000 homens.

Como em Leuctra, Epaminondas colocou os tebanos à esquerda, opostos aos espartanos e mantineanos, com os aliados à direita. Nas laterais colocou uma importante força de cavalaria reforçada com infantaria. Com isso esperava conseguir uma rápida vitória nos combates de cavalaria e começar a romper a falange inimiga.

A batalha se desenvolveu como Epaminondas havia planejado: as forças das laterais fizeram retroceder a cavalaria de Atenas e Mantineia e iniciaram o ataque às falanges inimigas. Na batalha entre os hoplitas houve um breve equilíbrio inicial, mas logo os tebanos conseguiram romper as linhas espartanas, e a falange inimiga completa foi disposta em fuga. Parecia que seria uma nova vitória decisiva de Tebas baseada no modelo de Leuctra mas, quando os vitoriosos tebanos se lançaram em perseguição aos inimigos, Epaminondas foi ferido mortalmente. Morreu pouco depois.

À medida que a notícia da morte de Epaminondas se estendia no campo de batalha de um soldado a outro, os aliados cessavam a perseguição ao exército derrotado, como uma prova da importância central de Epaminondas na guerra. Xenofonte, que termina seu relato com a Batalha de Mantineia, faz o seguinte comentário sobre o resultado do combate:


Quando todas estas coisas ocorreram, aconteceu o contrário do que todos os homens acreditavam que iria acontecer. Posto que quando toda a gente da Grécia havia se juntado e formado linhas contrárias, não havia ninguém que não pensasse que se a batalha ocorresse, aqueles que se demonstrassem vitoriosos seriam os novos líderes e os derrotados seus submetidos; mas a deidade ordenou que ambas partes levassem um troféu como se houvessem saído vitoriosas e nenhum trataria de estorvar ao outro, e que ambos devolveriam aos mortos sob uma trégua como se fossem vitoriosos, e ambos receberiam seus mortos sob uma trégua como se fossem derrotados, e enquanto ambas partes clamariam sua vitória, nenhum demonstraria ser melhor que o outro, nem obteria territórios, cidades ou domínios que antes da batalha já não tivessem; e inclusive haveria mais confusão e desordem na Grécia depois da batalha do que antes.
Xenofonte

Com suas últimas palavras, se diz que Epaminondas aconselhou aos tebanos que promovessem a paz, dado que não haveria ninguém mais que os pudesse liderar. Depois da batalha se firmou uma paz comum, passada no statu quo.

As biografias escritas sobre Epaminondas descrevem-no sempre como um dos personagens mais capazes dos que apareceram nas cidades-estado gregas em seus últimos 150 anos de independência. Em assuntos militares se encontra acima de qualquer outro tático na história grega, com a possível exceção de Filipe II da Macedônia, ainda que alguns historiadores modernos tenham questionado sua visão estratégica mais ampla. Sua estratégia em Leuctra lhe permitiu derrotar a temida falange espartana com uma força menor, e sua decisão de negar o uso do lado direito foi a primeira utilização registrada deste tipo de estratégia militar em campo de batalha. Muitas das mudanças táticas que implementou seriam logo usadas por Filipe II, que passou muito tempo em sua juventude como refém em Tebas, e é possível que, inclusive, tenha aprendido diretamente com Epaminondas. Victor Davis Hanson sugeriu que a formação filosófica de Epaminondas pode ter contribuído com o desenvolvimento de suas habilidades como general.

Em questão de caráter, Epaminondas estava fora de toda repreensão aos olhos dos antigos historiadores que estudaram sua vida. Seus contemporâneos elogiavam-no por desdenhar a riqueza material, compartilhando todas as suas posses com os amigos e repudiando os subornos. Ao que parece, sendo um dos últimos herdeiros da tradição pitagórica, viveu uma na simplicidade e na ascese, inclusive quando sua liderança lhe catapultou até a posição mais alta, o comando de toda a Grécia.

De certo modo, Epaminondas alterou de forma dramática a face da Grécia nos 10 anos em que foi a figura principal da política. No momento de sua morte, Esparta havia sido golpeada, Messénia havia sido libertada e o Peloponeso se organizou completamente. Partindo de outro ponto de vista, porém, deixou para trás uma Grécia não muito diferente da que já havia antes: as inimizades e as amargas diferenças que haviam envenenado as relações entre as pólis durante séculos continuavam tão profundas ou mais em relação ao que eram antes de Leuctra. A guerra brutal entre as distintas facções que houve na Guerra do Peloponeso e até então continuou igual, até que o surgimento da Macedônia como potência militar principal terminou com ela para sempre.

Em Mantineia, Tebas enfrentou as forças combinadas dos maiores estados da Grécia, mas a vitória não lhe supôs nenhuma vantagem. Com Epaminondas fora de cena, os tebanos voltaram a sua tradicional política defensiva, e, alguns anos depois, Atenas substituiu-os na liderança do sistema político grego. Nenhum estado grego voltou a submeter Beócia da mesma forma em que se havia visto submetido durante a hegemonia espartana, mas a influência de Tebas foi se esfumando rapidamente no resto da Grécia. Finalmente, na Batalha de Queronea, as forças combinadas de Tebas e Atenas, juntas numa tentativa desesperada de resistir a Filipe da Macedônia, foram derrotadas de forma esmagadora e a independência de Tebas chegou a seu fim. Três anos depois, empurrados por um falso rumor de que Alexandre, o Grande teria sido assassinado, os tebanos se rebelaram, e Alexandre esmagou a revolta e destruiu a cidade, massacrando ou reduzindo à escravidão todos os seus cidadãos.

Somente 27 anos depois da morte do homem que se fez preeminente em toda Grécia, a cidade de Tebas foi apagada da face da Terra. Sua história que havia durado um milênio, foi finalizada em poucos dias.

Epaminondas, portanto, é recordado por igual como libertador e como destruidor. Foi considerado tanto no mundo grego quanto no romano como um dos maiores homens da história. Cícero elogiou-o como «o primeiro homem, em minha opinião, da Grécia» e Pausânias escreveu um poema honorário para sua tumba:


Por meus conselhos foi Esparta privada de sua glória,
E a santa Messénia recebeu por fim seu filhos.
Com os braços de Tebas foi Megalópolis rodeada por muros,
E toda Grécia ganhou a independência e a liberdade.

Pausanias

As ações de Epaminondas foram, sem dúvida, bem-vindas pelos messênios e por outros aos quais ajudou em sua campanha contra Esparta. Esses mesmos espartanos, contudo, estiveram no centro da resistência às invasões persas do século V a.C., e sua ausência, sem dúvida, foi notada em Queronea. A guerra interminável da Grécia, na qual Epaminondas tirou proveito de um papel central, debilitou as cidades da Grécia até que não puderam se manter independentes frente aos vizinhos do norte. Enquanto Epaminondas lutava para assegurar a liberdade de Beócia e de outros gregos, aproximou o dia em que toda Grécia seria submetida por um invasor. Victor Davis Hanson sugere que Epaminondas pode ter planejado a criação de uma Grécia unida, composta por federações democráticas regionais, mas se esta opinião é certa, o plano nunca chegou a ser posto em prática. Apesar de todas suas nobres qualidades, Epaminondas foi incapaz de superar o sistema grego de cidades-estado, com sua rivalidade endêmica e sua guerra contínua, pelo que deixou a Grécia ainda mais arrasada pela guerra, mas igualmente dividida, assim como havia encontrado.

Referências

  1. Customer Reviews - "The Soul of Battle: From Ancient Times to the Present Day, Three Great Liberators Vanquished Tyranny"
  2. Victor Davis Hanson, The Soul of Battle.
  3. 3,0 3,1 3,2 3,3 Plutarco, Vida de Pelópidas.
  4. Atheneo, Deipnosophists, 605-606.
  5. Plutarco, Diálogo sobre el Amor (Moralia 761).
  6. O restante da informação desta seção na qual não se cita expressamente outra fonte, procede de Cornélio Nepos, Vida de Epaminondas.
  7. Toda a informação desta seção procede de J.V. Fine, The Ancient Greeks: A Critical History.
  8. Xenofonte, Hellenica 5.4.10-19.
  9. Todos os detalhes relacionados à confederação beócia e sua política procedem de Hanson, The Soul of Battle.
  10. Plutarco, Vida de Agesilao.
  11. Para estes fatos e a descrição da batalha, veja: Diodoro, Library 15.52-56, Xenofonte, Hellenica 6.4.4-20, e Plutarco, Vida de Pelópidas. Para uma síntese, veja Fine, The Ancient Greeks.
  12. 12,0 12,1 12,2 12,3 Hanson, The Soul of Battle.
  13. Para a invasão e liberação de Messénia veja Diodoro, Library 15.66, Xenofonte, Hellenica 6.5.27-32, e Plutarco, Vida de Pelópidas. Para uma síntese, veja Fine, The Ancient Greeks.
  14. Cornélio Nepos, Vida de Epaminondas.
  15. 15,0 15,1 15,2 Fine, The Ancient Greeks.
  16. Fine, The Ancient Greeks
  17. Xenofonte, Hellenica 7.1.41-43..
  18. Para esta campanha e a batalha de Mantineia, veja Diodoro, Library 15.82-89, Xenofonte, Hellenica 7.5.9-27, e Plutarco, Vida de Agesilao. Para uma síntese, veja Fine, The Ancient Greeks.
  19. James F. Lazenby, "Epaminondas", de The Oxford Classical Dictionary, Hornblower, Simon, and Antony Spawforth ed.
  20. Pausanias, Descrição da Grécia 9.15.6.
  21. http://pt.wikipedia.org/wiki/Epaminondas

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