Quinta-feira, 26 de Março de 2009

O Tempo e o Pensamento

Tempo de vida.


Perdemos tempo refletindo sobre a vida, sobre o que poderiamos fazer... ou como fazer.
Perdemos tempo pensando nas coisas que poderíamos ter feito diferente no passado distante e próximo.
Perdemos tempo quando olhamos para trás e pensamos nas coisas impensadas que fizemos.
Perdemos tempo quando refletimos e percebemos que continuamos a cometer os mesmos erros.
Perdemos tempo planejando como vamos enfrentar os nossos problemas de amanhã.
Perdemos tempo quando no dia seguinte pensamos que nada do que planejamos saiu como planejado.

Acredito que a vida não seja para se planejar, talvez não da forma como nós estamos fazendo, talvez haja algo mais que deixamos passar sempre as nossas vistas. Acreditar em uma vida traçada sem pensar que nós temos o livre arbítrio para escolher o que fazer, também é perder tempo. Continuamos sempre a errar, e a errar e erramos até quando achamos que fizemos algum acerto. No final, somos nada mais nada menos que marionetes de nossa inteligência que perde tanto tempo raciocinando para descobrir lá na frente que tudo sairia da forma como a natureza escolheu.

Seria muita pretensão da minha parte entender o que é a vida afinal, mas estou tão traumatizado com o tempo que perco pensando nas coisas que as vezes não vale a pena pensar; pois de qualquer forma não vai sair como esperado mesmo, que resolvi parar de pensar. Resolvi finalmente parar de tentar entender a natureza humana e divina...

Finalmente descobri que; o mais importante é não esquecer! 
Finalmente descobri que; não devemos tentar entender o que está além de nossa compreensão!
Finalmente descobri que; ainda que saibamos muito sobre algo, por mais simples que pareça... no final ele você sempre se engana.

Finalmente descobri que; o importante é lembrar!

Lembrar das coisas que passamos para não cair novamente nas armadilhas que nós mesmo fazemos.
Lembrar das coisas que falamos para não errar novamente.
Lembrar dos nossos sentimos e traduzir finalmente em palavras coerentes e honestas.
Lembrar de que somos tão pequenos que não nos cabe pensar no que não nos cabe entender...

Lembrar que devemos lembrar que a vida, não é para ser entendida... é para ser simplesmente vivida.


Vivo a vida agora, com prazer! tento aproveitar meus minutos tendo paz... parei de pensar no que pode acontecer e de como meus planos não deram certo. Sigo em frente, procurando apenas a paz e a serenidade... fujo da confusão e do disturbio, do centro dos acontecimentos, das pessoas falantes e hiperativas.

Estou de olho no tempo, esperando a sabedoria do tempo e não do pensamento. Pensar demais faz mal a mente humana, ataca sua visão do mundo e deturpa suas idéias. Cuidado com os seus pensamentos, eles podem lhe transformar numa pessoa melhor! mas talvez quando isso aconteça, você já esteja velho demais e não tenha mais tempo para adquirir a sabedoria... do tempo!


Há coisas que não devem ser entendidas pois são sem importância alguma! não perca seu tempo tentando entender!

Saudações!

Domingo, 8 de Fevereiro de 2009

Entre Homens e Generais (PARTE I)

Em outros tempos, em lugares distantes e inimagináveis aos habitantes da terra, um castelo no alto de uma montanha rochosa esconde uma prisão. Seus condenados sofrem além da privação da liberdade, a mais brutal tortura a tortura da própria consciência. Pagam pelo que fizeram de ruim quando em liberdade e em vida com um pequeno acréscimo pelo que deixaram de fazer em bondade. A diferença entre este lugar e a terra dos seres humanos, é que neste lugar seus habitantes não temem a morte, pois eles já estão mortos, sem a carne do corpo humano, apenas trajados de suas próprias almas que mais parecem trapos, uns não sabem nem mesmo de suas condições de almas, lapsos de memória devido ao ambiente e seus gritos de agonia, arrependimentos, e dores... Este lugar é especial, nele há somente os que cometeram grandes crimes de guerra quando em liberdade... Os que rebelaram-se, que cometeram crueldades, que arrastaram nações para a guerra sem um propósito nobre na defesa de seu chão pátrio e de seu povo.

O que se sabe sobre a vida e a morte, aquilo que está no conhecimento do povo na terra, difere um pouco da realidade no outro lado. O conceito de céu e inferno permanece, mas com uma pequena diferença... O inferno é um estado temporário de escuridão que a alma enfrenta, até que nasça ou re-apareça nela os germens da bondade e da resignação. Todas as almas já fraquejaram antes, até mesmo aquelas que já estão puras, sofreram em lugares de escuridão um dia. O criador da vida, não permite que um só de seus filhos se perca no caminho. Assim, a alma sendo a verdadeira propriedade da vida, nasce em um corpo de carne, morre, e renasce até encontrar o caminho reto e a perfeição. Aqueles que se dedicam a isso e obviamente alcançam a luz mais rapidamente, são encarregados de voltar ao lamaçal humano e desenterrar aqueles que se atolaram nele até os joelhos. Uns recebem missões a cumprir pelo pagamento de seus erros no passado, outros abraçam tarefas colossais, pois desejam ir ainda mais adiante em um tempo ainda mais curto.

Vou contar a história de uma dessas almas que criada há muito tempo na eternidade, viveu neste mundo e em outros, e assim como todos os seus irmãos e irmãs sofreu neste árduo caminho até a glória e a perfeição eterna, que por ele ainda não foi alcançado.

Amarrado a correntes colossais pelos pés, mãos e pescoço, preso a uma parede feita de restos de cadáveres humanos, estava Terzis. Capturado ha quase mil anos atrás, logo após tombar em um campo de batalha comandando um exército de mercenários. Faziam pilhagens, assassinatos e estupros pelo seu caminho, deixando uma trilha de medo e maldades. Seu caminho foi interrompido porque uma alma que muito amava Terzis tomou o fardo para si e o fez parar a força, matando-o em campo de batalha.  Como a ordem era apenas retirá-lo do mundo, a justiça foi feita por aqueles a quem ele impôs a dor no passado. Foi arrastado, recém desencarnado para esta prisão e desde o primeiro dia, está presto, da mesma forma que chegou mil anos atrás. O tempo na forma que conhecemos não é igual quando se está em outro mundo, para alguns as horas passam ainda mais rápido e para outros elas duram como séculos... Aos que sofrem as horas sempre são mais extensas.

Mas o sofrimento para o prisioneiro não é eterno, O Criador na sua infinita bondade permite-lhes a resignação, o arrependimento e sempre lhes dá uma nova chance de trilhar o caminho da retidão. Uma vez cumprida sentença, que leva exatamente tempo suficiente para que seu coração esteja disposto a reconhecer seus erros, ele é solto e pode novamente traçar o seu caminho, carregando em sua mente o peso de sua experiência e de seus sentimentos, os resquícios do que passou e da forma como terminou. Nenhuma dor é esquecida facilmente, mesmo para aqueles que já cumpriram com louvor o seu objetivo de arrependimento e resignação... Lembranças são como fantasmas, elas vem e vão a todo instante, e não há um só momento em que se consiga livrar-se delas, por este motivo antes de cometer um novo delito, a consciência uma vez consultada faz voltar ao coração às lembranças das pesadas penas, assim funciona a nossa consciência, nos protegendo e em algumas vezes nos repreendendo.

Terzis, havia se arrependido de cada alma que havia tirado a vida, cada maldade e cada delito... Ele estava em estado de transe ha quase quinhentos anos, vegetando e perdendo a forma humana, desfigurado, em trapos e deixando visivelmente os ferimentos de batalha aparecer meio a larvas e vermes. Havia perdido toda e qualquer esperança de recuperação, lembrava dos bons momentos que teve em suas várias existências e se entristecia quando notava que sempre as destruía de alguma forma, pelo seu forte gênio e calos morais. Pensava que nunca havia experimentado sequer um amor na vida, que não fosse de sua mãe, a mesma mãe em todas as suas existências, imaginava que fim ela haveria tido, onde estaria e se estaria bem, imaginava porque nunca havia recebido uma visita... Consolava-se porque talvez uma parte de sua dívida fosse essa. Pensava consigo mesmo que se um dia conseguisse a liberdade novamente a primeira coisa que faria seria procurar sua mãe e nunca mais deixá-la sozinha, ansiava por poder reparar a angustia que a teria feito sofrer, mas também sentia receio de que ela o teria esquecido. Certa vez, refletiu sobre todo o conhecimento de guerra que adquiriu ao longo de suas existências, tal conhecimento que agora reconhecia inútil, haveria caído em fins totalmente opostos e tudo o que tinha aprendido com a carreira das armas. Ser duro e suportar suas dores e sofrimentos, tal coisa lhe consolou durante tanto tempo, mas agora não podia mais suportar estar preso aquelas correntes sem sequer olhar para outro lado que não fosse em direção ao chão. Agora se sentia verdadeiramente morto... Acreditava que ninguém o faria erguer as pernas novamente, senão ele próprio.

Após mil e cem anos, recebe a visita de um ser ao qual não podia ver ou sequer sentir, tal alma o ficou observando por vários dias. Conversava com os mentores da prisão: - É a ele que busco, e a ele que tenho as ordens de levar comigo, as ordens são claras e partem diretamente do alto comando, devemos partir assim que ele estiver suficientemente forte para ficar em pé e andar, libertem-no.

Um dos carrascos entra em sua cela e lhe retira as correntes, Terzis em transe só percebeu o acontecido, dias depois. Tateando o chão, tenta mover-se em direção a saída, já não possui mais a visão em seus olhos e tem apenas uma vaga lembrança da luz, tateando durante dias, finalmente chega a uma grande escadaria, sobe com dificuldade e finalmente encontra-se a beira da saída, seus sentimentos estão confusos e ele está tremulo, não possui forças para continuar e desmaia. Foi então, carregado para fora e levado a uma pequena torre próxima, onde havia uma cama ao qual foi acomodado. Ainda que as feridas da alma tenham suas origens na mente do homem, sua cura também depende de cuidados físicos mesmo após a perda do corpo humano, a realidade das coisas varia de estado mental e neste caso agravado pela extensão da pena e das condições, ele precisaria de muito tempo para falar e andar novamente.

Já recuperado parcialmente os sentidos, Terzis agora conseguindo ficar sentado, já pode sentir o cheiro do campo que entrava pela janela e também a presença da luz próxima aos olhos, quando contemplava tão abençoado momento... Escutou uma voz:

Voz: - Terzis...

Vira sua cabeça assustado em direção a voz e fica apavorado. Pensa que vão lhe levar de volta para o buraco em que viveu todo aquele tempo... Enche seus olhos de lágrimas, não tem forças alguma para se defender e nem voz nas cordas para implorar.

Voz: - Terzis, depois de tanto tempo, fico feliz que finalmente tenha chego a sua hora, a hora de voltar a sua verdadeira vida.

Reconhece a voz que lhe fala, mas ainda não esta suficientemente forte para falar, as palavras simplesmente não saem da boca, ele sente uma alegria intensa, e chora pensando que fora abençoado pelo Criador por alguém que ainda lembra-se de seu nome...

                Voz: - Terzis, não fique assim, você não voltará aquele lugar, e eu estarei aqui ao seu lado até que você recupere a visão, a fala e volte a andar. Eu me chamo Ynos e lutei com você em muitas batalhas em um passado muito distante. Também recebi minha pena que não foi nada comparado a sua, mas enfim estamos juntos e livres novamente, agora nos resta recuperar o tempo perdido e o amor de nossas famílias deixadas pelo amor a guerra. Por agora era o que você precisava saber, quando novamente puder falar, então responderei suas perguntas. Agora descanse.

Terzis se emociona com as palavras e faz uma humilde oração ao Criador, agradecendo que o seu tempo finalmente tenha chegado, afinal foram longos tempos preso a uma parede que mais parecia um cemitério com restos humanos por todas as partes, do que apenas uma parede. Traz consigo agora muitas esperanças, vai poder ir atrás de sua mãe novamente e isso lhe da ainda mais forças para se recuperar mais rápido. Após alguns dias, Terzis recupera voz, e pode enxergar um pouco, se surpreende quando vê Ynos pela primeira vez, um velho amigo de muito tempo atrás. Imaginava como ele ainda pudera se lembrar de Terzis e lhe estar ajudando, ao questionar Ynos, diz que as ordens de vir buscá-lo partiram de planos mais altos e que foram bem claras. Nem tudo seria simples e haveria novamente algo a ser feito, ainda havia dividas a serem pagas por Ynos e Terzis, ao qual deveriam fazê-lo juntos. Além do que os dois foram convidados a participar de todas as grandes guerras que haveriam de acontecer na terra, como forma de pagar o débito por completo mais rapidamente, mas isso só poderia acontecer se Terzis também aceitasse. A alegria de Terzis era tão grande por novamente estar livre, que aceitaria qualquer condição, sua mente também o perseguia, afinal quando se faz o mal e se adquire a consciência do arrependimento por isso, se sente ao peito um desejo ainda mais forte de reparação. Partiram daquele lugar em uma manhã, dias de viagens por vales escuros e pântanos com seres de formatos estranhos e tenebrosos não intimidavam Terzis, no inferno em que ele havia vivido com o pior dos inimigos a lhe torturar, a própria consciência, havia o tornado tão forte e duro como uma rocha, e ele não haveria de fraquejar, pagaria o que deve moeda a moeda, seja qual fosse o preço, sua determinação e poucas palavras impressionavam Ynos.

                Ao chegar a um pequeno vilarejo, entraram em um tempo, Terzis ainda tinha as marcas dos seus ferimentos de mil anos atrás no corpo, e suas vestes ainda estavam em trapos, o que lhe sobrou da armadura. Mesmo após a morte do seu corpo, e o seu estado mental, sua alma ainda carregava a mesma aparência no dia em que foi morto. Detalhes do acontecimento haviam desaparecido com o tempo, mas isso não lhe fazia importar.

 

(continua).

 

 

Terça-feira, 28 de Outubro de 2008

Eu sou o ultimo da minha linhagem?

Entre os amores que não se amaram, que a vida em terra os separou... pelas dores da inveja, da cobiça dos homens, eu sobrevivi... perdi a minha terra, mas a lembraças da minha infância estão bem guardadas na memória do mais íntimo do meu espírito!, não importa quantos anos se passem e quantas circunstâncias venham me fazer mudar, eu jamais esquecerei das coisas que a vida me ensinou, de quem eu realmente sou e de onde eu vim. O homem que foge de sí mesmo é o verdadeiro covarde! aquele que não enfrenta seus medos e suas dores será condenado por deserção!. A todos que vivem uma vida medíocre, sem combater, sem lutar, sem desejar, sem sonhar por achar que os sonhos estão distantes da realidade... estes são dignos de piedade, e piedade para um guerreiro é a decadência, viver com glória e morrer com ela essa é a lei. Não interessa em que plano se vive, ou em que era se luta ou menos contra quem se luta... a vitória está na vitória em sí mesmo, no domínio do seu espírito ignorante!
Homens, como conseguis vós viver sem Honra! Como podereis vós esquecer do brilho das estrelas e do universo, que queima como uma chama na hora da alegria, e se apaga como a mais profunda escuridão na hora da adversidade e da provação???? quem sois vós para lhe dar ao prazer de descansar durante a luta mais intensa? não tens sequer o direito de pensar na derrota, sejais fortes, pois fortes e bravos fostes criado e a glória como teu prêmio virá depois da tempestade.
Quais feitos tens realizado? o que de bom vós me trazeis para o bem do Universo? que diferença tens feito no mundo em que vives? porque maltratas o teu companheiro que ainda abaixo de tí, és mais digno do chão em que pisa do que tu mesmo.
A glória da eternidade não foi dada aos medrosos e fracos!, se tens medos e se sentes ainda incapaz de lutar mas desejas do fundo da tua alma aspirar a verdadeira satisfação pela missão cumprida...
Saiba que a coragem pode ser ensinada como uma criança é ensinada a andar...Uns tem o dom nato no espírito, outros devem aprendê-lo... e te digo que aquele que supera suas dificuldades, tem ainda mais mérito quando conquista, do que o General de Guerra, nascido general!.
Força Homens! Coragem! Coragem!
EU conheci muitos homens! mais apenas alguns deles eram realmente colossais!

Sábado, 28 de Junho de 2008

Virtudes e Deveres... em memória de Cícero e Cipião

Cipião — A princípio, o homem emitia unicamente sons inarticulados e confusos. Depois, sua inteligência lhe fez distinguir e separar em partes esses sons; deu, depois, a cada coisa um nome que a distinguisse das outras; e os homens, separados antes, encontraram-se unidos com esse vínculo de simpatia. A própria inteligência, as vozes, que pelo seu som pareciam antes infinitas, assinalaram-se e se expressaram todas com poucos sinais e caracteres, com os quais se tornou possível falar com os ausentes, manifestar os movimentos de nossa alma e esculpir nos monumentos a lembrança das coisas que se foram. Inventaram-se depois os números, para a vida tão necessários, cuja ciência se pode dizer imutável e eterna, posto que é a primeira que ergue nosso olhar para o céu e nos diz que não devemos ver indiferentemente a sucessão das noites e dos dias e o curso tão imutável quanto majestoso dos astros.

II. “Alguns homens, cujas almas se elevaram a eminente altura, puderam discorrer a respeito das coisas que, como disse, tinham recebido dos deuses, e tornar-se dignos delas. Assim, os que nos legaram suas dissertações sobre a vida são, para nós, grandes homens, e o são realmente, quer considerados como sábios profundos, quer como apóstolos da verdade, quer como mestres da virtude. Não se deve, por isso, deixar de reconhecer que a arte social de governar os povos, ou na variedade dos descobrimentos dos homens versados no governo da República, ou no que eles escreveram em seu ócio fecundo, longe de ser uma ciência sem importância, desperta nos engenhos privilegiados uma virtude divina e quase incrível; e quando a essas excelsas faculdades naturais, desenvolvidas pelas instituições civis, se unem, como nos interlocutores deste diálogo, sólida instrução e extensos conhecimentos, ninguém haverá que a eles se deva antepor. Com efeito, que pode existir de mais preclaro do que o conhecimento e o hábito dos problemas mais importantes da política, quando se unem a eles o prazer e a experiência das artes do entendimento? Que homens haverá melhores do que Cipião, Lélio e Filão, que para reunir quantos dotes um homem eminente necessita, uniram às tradições dos seus antepassados e aos seus costumes domésticos a doutrina estranha que haviam recebido de Sócrates? Em suma, quem ambas as coisas quer e pode, quem se instrui ao mesmo tempo na doutrina presente e nas instituições passadas, julgo que merece a maior consideração e os mais perfeitos elogios. Se fosse absolutamente necessário escolher um desses caminhos da sabedoria, apesar de parecer mais feliz a vida pacífica e santa, passada tranqüilamente na solidão dos estudos e das artes, eu julgaria certamente mais louvável e ilustre a vida cívica, na qual brilham tão grandes homens, como Cúrio.

***

Que ninguém conseguiu vencer com ferro ou ouro.

III. “Nossos grandes homens se diferenciam nisto: em alguns, a oratória e as artes desenvolveram os princípios da natureza, que é obra, em outros, das instituições e das leis. Por si só, nossa cidade produziu um considerável número, se não de sábios, posto que tanto se deve restringir a aplicação desse título, certamente de varões dignos de elogio, por terem cultivado os inventos dos sábios e os preceitos da sabedoria; contai, agora, todos os Estados famosos, nos tempos que foram e nos que são; considerai que a maior obra do gênio sobre a terra consiste em constituir uma República verdadeira; e ainda quando só conteis um homem em cada cidade, que imensa multidão não encontrareis de varões ilustres? Basta prestardes atenção à Itália, ao Lácio, à própria sabina e volsca multidão, ao Sâmnio, à Etrúria; basta dirigirdes o olhar para a grande Grécia, os assírios, os persas, os cartagineses...”

IV. Filão: — “Na verdade, me conferes uma empresa pouco simpática, pretendendo tornar-me defensor da injustiça!” Lélio: — “Temerás certamente que, ao dizer tudo quanto se costuma dizer contra a justiça, pareça que defendes tua opinião, quando és brilhante exemplo de honra e probidade; mas, ninguém ignora o hábito de discutir teses contrárias, para chegar ao descobrimento da verdade por esse meio.” Filão: — “Pois bem, defenderei o mal, em vosso obséquio. Se os que procuram o ouro, não hesitam em afundar-se na lama, nós, que procuramos alguma coisa mais do que o ouro, a justiça, não devemos evitar o menor incômodo. Pudesse eu, ao defender opiniões alheias, fazê-lo também com linguagem alheia! Mas, hei de ser eu, Filão, quem há de sustentar o que defendia Carnéades, o grego, tão hábil em apoiar teses contraditórias?

“Se falo, pois, nesse sentido, não será certamente para expressar o que meu ânimo sente, mas para que possas desfazer a argumentação de Carnéades, que costumava despedaçar as melhores causas com seu engenho.

V. “Aristóteles(129) tratou em quatro livros, com bastante amplitude, dessa questão da justiça. Pelo .que diz respeito a Crisipo(130), nada encontrei nele de elevado nem de grande; porque, conforme seu costume, atende mais às palavras do que às coisas. Nem por isso afirma que não tenha sido digno dos heróis da filosofia combater por uma virtude que, se existe de algum modo, é altamente liberal e benfeitora, cabendo à sabedoria colocá-la num divino sólio. Seu propósito não devia ser outro; que outra coisa se poderiam propor ao escrever, ou que outra podia ter sido a sua determinação? Não lhes faltou, certamente, talento. Mas, a causa que defendiam pode mais do que a sua vontade. O direito que procuramos pode ser alguma vez civil, natural nunca; se o fosse, como o quente e o frio, o amargo e o doce, seriam o justo e o injusto iguais para todos.

VI. “Se, como na ficção pacuviana, pudesse alguém ser levado pelos ares num carro de serpentes com asas e percorrer as nações, as cidades e as várias gentes, fixando nelas seus olhos, veria, antes de tudo, o grande Egito, cuja história nos traz a lembrança de séculos e acontecimentos sem número; veria um boi adorado como deus, sob o nome de Apis(131), e muitos outros portentos entre eles, e muitas feras adoradas como deuses. Na Grécia, como entre nós, veria suntuosos templos consagrados a ídolos de forma humana, considerados ímpios na Pérsia; de modo que, se Xerxes(132) fez incendiar ali os templos de Atenas, foi na crença firme de que era sacrilégio encerrar em estreitas paredes os deuses, cuja residência era a imensidade dos mundos; mais tarde ainda, quando Filipe(133) concebeu a guerra, que empreendeu depois Alexandre(134), contra os persas, foi com o pretexto de vingar a profanação dos mesmos templos, que os gregos não queriam reedificar, para tornar mais sempiterna aos olhos da posteridade essa prova do crime dos bárbaros. Muitos outros povos, como os de Tauro, os do Egito sob a dominação de Busiris(135), os gauleses e os cartagineses, julgaram que era piedoso e gratíssimo aos deuses imortais sacrificar os homens em seus altares. Observai quão longe estão essas instituições das dos etólios cretenses, ao julgarem honesto o latrocínio, e da dos lacedemônios, que proclamavam que onde chegasse o ferro de sua lança se estendiam campos florescentes. Costumavam os atenienses declarar, em juramento público, que todas as terras que produziam oliveiras e trigo eram de sua propriedade. Os gauleses julgavam afrontosos os trabalhos agrícolas e, assim, procuravam colher, com as armas na mão, os campos alheios. Nós mesmos, homens justos, que não permitimos que as gentes transalpinas semeiem azeitonas nem uvas para superá-las em vinhos e azeites, ao fazer isso julgamos proceder prudentemente, mas não com justiça. Vede como a sabedoria difere da equidade; o mais sábio legislador, aquele Licurgo, que observou sempre a maior equidade no direito, não deixou de condenar a plebe ao vil cultivo dos campos dos ricos.

VII. “Se eu quisesse descrever os gêneros diversos de leis, instituições, hábitos e costumes, tão diversos não só em todos os povos, como numa mesma cidade, demonstraria nesta os seus milhares de mudanças. Se Manílio, nosso intérprete de direito, que agora me ouve, fosse interrogado a respeito dos legados e heranças das mulheres, decerto responderia diversamente do que costumava responder na sua adolescência, quando ainda não se havia promulgado a lei bocônia(136), que, atendendo só à utilidade e benefício dos varões, está cheia de injustiças para as mulheres. Porque não há de ser a mulher capaz de possessão? Porque, se uma vestal pode instituir herdeiro, não há de poder fazê-lo sua mãe? Porque, se era necessário fixar limites à riqueza das mulheres, pode a filha de Públio Crasso(137), sendo única, herdar milhões, sem quebrar a lei, ao passo que a minha: não pode herdar quantia muito mais ínfima?

VIII. “Se fosse inata a justiça, todos os homens sancionariam o nosso direito, que seria igual para todos, e não utilizariam os benefícios de outros em outros tempos nem em outros países. Pergunto, pois: se o homem justo e bom deve obedecer às leis, a quais deve obedecer? Não será a todas sem distinção, porque a virtude não admite essa inconstância, nem a natureza essa variedade, comprovando-se as leis com a pena e não com a nossa justiça. Não há direito natural e, por conseguinte, não há justos por natureza. Direis, talvez, que, se as leis mudam, todo cidadão verdadeiramente virtuoso nem por isso deve deixar de seguir e observar as regras da eterna justiça, em lugar das de uma justiça convencional, posto que dar a cada um seu direito é próprio do homem bom e justo. Mas, quais são, então, os nossos deveres para com os animais? Não varões vulgares, mas doutos e esclarecidos, Pitágoras e Empédocles(138), proclamam um direito universal para todos os seres vivos, ameaçando com terríveis penas aquele que se atreve a violar o direito de um animal qualquer. Prejudicar os animais é, pois, um crime.

“Como Alexandre perguntasse a um pirata com que direito infestava o mar com — seu barco: — “Com o mesmo, — respondeu-lhe, — com que tu infestas e devastas o mundo.”

IX. “Perguntai a todos; a prudência prescreve que aumentemos nosso poder e ampliemos os nossos territórios, para chegarmos aos fins que nos propomos. De que modo Alexandre, esse grande conquistador, que estendeu seu império na Ásia, teria podido, sem violar o território alheio, propagar — seu império e entregar-se à voluptuosidade da dominação, da ambição e do orgulho? A justiça, pelo contrário, nos prescreve o respeito aos direitos privados, nos manda consultar o interesse do gênero humano, dar a cada um seu direito, não tocar nas coisas sagradas, nem públicas, nem alheias. Que acontece então? Riquezas, crédito, grandeza, autoridade, império, são patrimônio dos particulares e dos povos, se escutas a prudência. Mas, posto que falamos da República, os exemplos públicos nos serão de mais utilidade; e, já que os princípios de direito são idênticos para as nações e para os indivíduos, julgo preferível dizer alguma coisa da marcha política de um povo. E, sem falar de outros, do nosso, cuja vida, desde o berço, Cipião seguiu ontem no seu discurso, e cujo império se estende hoje pelo mundo inteiro: foi por meio da justiça e com uma política prudente que, do povo mais insignificante, chegou a ser o povo-rei?

X. Todos os que usurpam o direito de vida e morte sobre o povo são tiranos; preferem, porém, chamar-se com o nome de reis, reservado a Júpiter Ótimo.

“Quando as riquezas ou o nascimento, ou qualquer coisa parecida, fazem predominar na República alguns homens, embora pretendam chamar-se aristocratas, não passam de facciosos. Quando o povo pode mais e rege tudo ao seu arbítrio, chama-se a isso liberdade; mas é, na verdade, licença. Quando um teme a outro, o homem ao homem, a classe à classe, forma-se entre o povo e os grandes, em conseqüência desse temor geral, uma aliança de que resulta o gênero de governo misto, que ontem Cipião tanto elogiava. A justiça não é filha da natureza, nem da vontade, mas de nossa fraqueza. Se fosse preciso escolher entre três coisas, — cometer injustiças sem sofrê-las, cometê-las e sofrê-las, ou evitar ambas, — o melhor seria cometê-las impunemente; se fosse possível, portanto, não fazê-las e não sofrê-las, ao passo que o estado mais miserável seria lutar sempre, quer como opressor, quer como vítima...

XI. “Nenhum povo teria pátria se tivesse de devolver o que usurpou, exceto os árcades(139) e os atenienses, que, temerosos, na minha opinião, de que chegue o dia dessa justiça, supõem ter saído da terra, como os ratos da imundície dos campos.

XII. “Une-se a esses argumentos a opinião de certos filósofos, tanto mais digna de se levar em conta quanto nesta matéria, em que procuramos o homem de bem, o varão reto e sincero, não empregam na controvérsia nem susceptibilidades nem astúcias. Negam que o atrativo da virtude consista, para o varão reto, no prazer pessoal que a bondade e a justiça lhe proporcionam, mas em que a vida do homem virtuoso transcorre sem cuidados, nem temores, nem perigos, ao passo que os ímprobos albergam sempre em sua conseqüência algum escrúpulo, oferecendo-se sempre, ante seus olhos, a afrontosa imagem dos processos e dos suplícios. Acrescente-se que não pode haver benefício, por grande que seja, nem prêmio que proceda da injustiça, que valha a pena de recear sempre, de esperar sempre o castigo que ameaça o injusto.

XIII. “Suponhamos dois homens: um, o melhor de todos, de suma eqüidade e justiça, e de fé singular; outro, insigne na maldade e na audácia; suponha-se que uma cidade caiu no erro de crer que o varão virtuoso era malvado, facinoroso e infame; que, pelo contrário, considere o ímprobo como de suma probidade e fé; que, por essa opinião de todos os cidadãos, aquele varão virtuoso seja insultado, encerrado, mutilado em mãos e pés, cegado, condenado, torturado, queimado e proscrito; que morra de miséria, longe da pátria, e pareça, enfim, o mais infeliz dos homens, assim como o mais miserável. Por outro lado, cerquemos o malvado de adulações, de honras, do apreço geral; cumulemo-lo de dignidades, categorias, riquezas, e proclamemo-lo, unanimemente, o mais virtuoso e o. mas digno de prosperidade pelo julgamento comum. Quem será tão demente que hesite na, escolha da conduta de ambos?

XIV. “Nos povos, como nos indivíduos, não há cidade tão imbecil que não prefira imperar com a injustiça a cair pela justiça na servilidade. Não procurarei exemplo muito longe; eu era cônsul, e vós fazíeis parte do meu conselho, quando tive de julgar o tratado numantino(140)). Quem ignorava que Quinto Pompeu tinha assinado o tratado, e que se dava o mesmo com Mancino(141)? Homem virtuoso, aprovou este a lei que eu apresentei, depois de consultado o senado; aquele combateu-a, acérrimo. Se procurais pudor, honradez, boa fé, procurai-a em Mancino; quanto à sabedoria, em política, em prudência, quem poderá superar Pompeu?

XV. “Se um varão reto e honrado tem um escravo fugitivo, ou uma casa insalubre e pestilenta, cujos vícios só ele conhece, e suponho que os taxe para vendê-los, dirá a todos os que quiserem ouvi-lo que vende um escravo fugitivo e uma casa pestilenta, ou o ocultará a quem tiver de comprá-los? Se o declara, passará por honrado, e também por idiota; porque não os venderá, ou os venderá por preço insignificante. Se o oculta, será prudente, porque prosperará nos negócios, e também malvado, porque engana. Pelo contrário, se esse homem encontrar outro que venda ouro julgando vender metal dourado ou prata, ou chumbo, avisa-lo-á, para que aumente o preço? Não passará isso de insigne tolice.

“Não há dúvida de que a justiça prescreve que não se mate o próximo, nem se toque no que lhe pertence. Mas, que fará o justo que, no perigo de um naufrágio, vê agarrar-se a uma tábua outro mais fraco do que ele? Expulsa-lo-á para salvar-se, mormente quando no meio do mar ninguém pode presenciar tal fato? Fá-lo-á se proceder cordatamente, posto que pereceria se o não fizesse. Se prefere morrer a prejudicar a outrem, será na verdade justo, mas estulto, pois dá sua vida para conservar a alheia. Da mesma forma, se, fugindo diante do inimigo, vê um homem ferido montado num cavalo, deixá-lo-á nele para morrer às mãos do inimigo, ou o desmontará para aproveitar-se desse meio de salvação? Será mau se o faz, mas prudente; insensato, se não o faz, embora honrado.”

XVI. Cipião: — “Eu não insistiria, amigo Lélio, se os nossos amigos, assim como eu, não desejassem ver-te tomar parte neste diálogo. Disseste, ontem, que teu discurso seria mais longo do que o meu; mas, se isso não for possível, suplicamos-te que nos digas alguma coisa.”

Lélio: — “Essa tese de Carnéades não deve achar ouvidos na nossa juventude. Se sente o que diz, é homem impuro, e, se não o sente, seu discurso não é menos digno de censura.

XVII. “A razão reta, conforme à natureza, gravada em todos os corações, imutável, eterna, cuja voz ensina e prescreve o bem, afasta do mal que proíbe e, ora com seus mandatos, ora com suas proibições, jamais se dirige inutilmente aos bons, nem fica impotente ante os maus. Essa lei não pode ser contestada, nem derrogada em parte, nem anulada; não podemos ser isentos de seu cumprimento pelo povo nem pelo senado; não há que procurar para ela outro comentador nem intérprete; não é uma lei em Roma e outra em Atenas, — uma antes e outra depois, mas una, sempiterna e imutável, entre todos os povos e em todos os tempos; uno será sempre o seu imperador e mestre, que é Deus, seu inventor, sancionador e publicador, não podendo o homem desconhecê-la sem renegar-se a si mesmo, sem despojar-se do seu caráter humano e sem atrair sobre si a mais cruel expiação, embora tenha conseguido evitar todos os outros suplícios.

XVIII. “A virtude quer a glória como único prêmio, e a quer sem amargura —

“Com que riquezas recompensarás o varão justo? Com que império? Com que reino? Julga esses bens como humanos, e os seus como divinos. Porque, se a ingratidão do universo, ou a inveja da multidão, ou inimigos poderosos, tiram à virtude seu prêmio, sempre desfruta ela de inúmeros consolos, consolando-se, sobretudo, com a própria beleza.

XIX. “Ao voltar Tibério Graco da Ásia, perseverou na justiça para com os seus concidadãos; não respeitou, porém, os direitos nem os tratados concedidos aos aliados e aos latinos. Se esse hábito de violências se estende mais além; se traduz nosso império do direito à força, até conseguir conter pelo terror os que voluntariamente hoje nos obedecem, talvez possamos, em nossa idade, evitar o perigo, mas não o da prosperidade e o da imortalidade que desejo para a República, imortalidade que poderia ser perpétua se conservássemos vivas as instituições e os costumes dos nossos pais.”

XX. Tendo Lélio dito isso, todos lhe manifestaram o prazer que sentiram ao ouvi-lo. Cipião, mais contente e comovido do que os outros: — “De tal modo, Lélio, defendeste essa tese, — disse-lhe, — que não me atrevo a comparar-te com o nosso colega Sérvio Galba(142), o qual, em vida, a todos antepunhas, nem aos oradores atenienses.

XXI. “Quem podia chamar República, — continuou Cipião, — ao Estado em que todos estavam oprimidos pela crueldade de um? Não havia vínculos de direito, nem consentimento na sociedade, que é o que constituía o povo. O mesmo aconteceu em Siracusa. Aquela cidade preclara, que Timeu dizia ser a maior das gregas, e por sua formosura a todas preferível, não chegou a ser uma República sob a dominação de Dionísio, apesar das suas muralhas, dos seus portos banhando a cidade, das suas largas ruas, dos seus templos e dos seus pórticos. Nada de tudo isso era do povo nem o povo. Posto que, onde está o tirano, não só é viciosa a organização, como ontem eu disse, como também se pode afirmar que não existe espécie alguma de República.”

XXII. Lélio: — “Falas admiravelmente, e já adivinho o objeto que se propõe teu discurso.” Cipião: — “Vês, pois, que, onde tudo está sob o poder de uma facção, não se pode dizer que existe República.” Lélio: — “Assim o julgo, francamente.” Cipião: — “E julgas bem. Que foi de Atenas quando, depois daquela grande guerra do Peloponeso, se lhe impuseram tantos chefes pela força? A vetusta glória da cidade, o pomposo aspecto dos seus edifícios, o seu teatro, os seus ginásios, os seus pórticos, os mosaicos célebres dos seus pavimentos, a sua cidadela, as obras de Fídias(143), o magnífico porto do Pireu, bastavam para fazer de Atenas uma República?” Lélio: — “Não, certamente, porque nada, ali, era do povo.” Cipião: — “E quando os decênviros em Roma, mandando sem apelação, chegaram a ferir a liberdade de morte?” Lélio: — “A coisa do povo já não existia, e breve este lutou para recuperá-la.”

XXIII. Cipião: — “Chego, enfim, a tratar da terceira forma de governo, em que talvez encontraremos, também, não poucas dificuldades. Quando todo o poder está em mãos do povo, senhor único; quando a multidão, inapelável, soberana, fere, mata, aprisiona, confisca os bens a seu talante, podes, Lélio, negar que exista uma República, posto que queremos que a República seja coisa do povo?” Lélio: — “A nenhum estado negarei tanto esse nome como àquele em que tudo está sob o poder da multidão. Negamos o nome de República a Siracusa, a Agrigento, a Atenas, quando dos tiranos, e a Roma, quando dos decênviros; não creio que corresponda mais o nome de República ao despotismo da multidão, porque o povo não está para mim, como tu, ontem, Cipião, disseste muito bem, senão onde existe o consentimento pleno de direito, sendo esse conjunto de homens tão tirano como se fosse um só e tanto mais digno de ódio quanto nada há de mais feroz do que essa terrível fera que toma o nome e imita a forma do povo. Se as mossas leis privam dos seus bens os insensatos, como deixá-los de posse do poder?

XXIV. “Não se pode dizer da aristocracia o que nesse ponto dissemos da monarquia?” Múmio: — “E também muito mais. Um poder que se não há de dividir expõe, com efeito, os reis a parecerem déspotas, ao passo que a administração de muitos homens virtuosos faz com que não seja fácil encontrar um estado melhor. Prefiro, entretanto, a monarquia à dominação do povo inteiramente livre, terceiro sistema, e o mais defeituoso, de que ainda te falta falar.”

XXV. Cipião: — “Reconheço, Espúrio, tua aversão ao sistema popular, e, mesmo que pudesse ser tratado com mais lenidade do a que costumas usar, concedo, não obstante, que dos três gêneros, é esse o menos digno de aprovação. Mas, não estou de acordo contigo em preferir ao rei os aristocratas; porque, ai é a sabedoria que há de governar a República, que importa que resida num ou em muitos? Mas, as próprias palavras nos fazem cair no erro. Quando falamos de aristocracia, pensamos no governo dos otimates. Mas, quando fazemos menção de um rei, ocorre-nos o qualificativo de injusto. No entanto, não pensamos na injustiça ao falarmos do governo monárquico. Pensa em Rômulo, em Pompílio ou em Tulo Hostílio, e talvez, então, se torne menor tua severidade.” Múmio: — “Que achas, pois, digno de elogio na constituição democrática?” Cipião: — “Parece-te democrática, Espúrio, a constituição de Rodes?” Múmio: — “Sim, na verdade, e pouco digna de vitupério.” Cipião: — “Dizes bem; e, se te lembras de quando estiveste lá comigo, verás que todos, ali, tão depressa pertenciam à plebe como ao senado, cumprindo ora os deveres populares, ora os senatoriais. Por ambos os conceitos, recebiam seus direitos, e tanto no teatro como nos comícios, tomavam conhecimento de todos os assuntos, desde os de maior importância até aos mais insignificantes.

...
Em memória aos grandes, Cícero e Cipião.
Percursores da Doutrina Espírita nos tempos da Espada, fizeram das virtudes suas armas e da razão suas vidas.


Sábado, 31 de Maio de 2008

Arrogância e Orgulho custam caro...

Dias antes da batalha de Pydna, o conselho da Macedônia se reúne em um salão regado a pães e vinhos. Estão presentes, os 3 Generais do reinado, o Rei Perseas e 20 outros velhos anciões, cada um responsável por uma região da Macedônia, representando as cidades próximas, os vilarejos e as fazendas.

Ynos, Terzis e Milo, possuem o exército pronto às mãos. Todos os homens encontram-se provisionados, munidos e anciosos para combater os romanos.

Nesta noite, um velho homem, com semblante amigável e muito gentil, reúne-se a mesa, é muito bem recebido e logo ao entrar na sala é saudado pelo próprio Rei Perseas e por seus generais.

Perseas então começa um discurso político regado a arrogância e subestimando a força romana, é coberto de elogios e sussurros pelos velhos anciões, que poderíamos comparar aos velhos senadores romanos... em suma, interessados apenas nas vantagens que o resultado de tudo aquilo lhes poderia trazer, afinal, apoiar o Rei é dever, de fato, e não apoiá-lo seria um crime, que poderia ser punido até mesmo com a morte.


Perseas:

- O reino da Macedônia, soberana, não será afetado por nenhuma outra nação, nossas políticas são sempre as mesmas, eu comando em favor do povo e os trato como meus iguais. Temos hoje o exército mais forte que o mundo já conheceu, nossas falanges podem subjulgar qualquer sistema de guerra ou quaisquer combatentes em suas terras, o que é risível, que nossos inimigos atentem contra nossa nação em nosso próprio chão. Como sabem, tenho olhos por toda a Grécia, e meus batedores nos mantém informados sobre os passos dos inimigos, nossos Generais, nobres homens a quem meu pai me legou o comando e a doutrina, me honram ao dizer que nossa vitória será completa, e que não há chance alguma de derrota em nosso solo.


Terzis:

- Meu Rei, como dizes, conhecemos nosso solo, como conhecemos nossas mulheres e nossos filhos, e como sempre, meu Rei possui toda a razão. Nossa vitória será completa se agirmos corretamente em nosso deslocamento, como sabes nossa falange não combate nas steps e em regiões montanhosas, desse modo, devemos emboscar as forças inimigas, ao desembarcarem na costa da Macedônia, e aguardá-los na praia, os abordaremos cansados da viagem e enfermos ao que nossos mares lhes darão. É arriscado meu Rei, deixá-los marchar por dias, em busca de um lugar aonde poderiam até mesmo nos causar uma surpresa.



Perseas:

- Terzis, não se perturbe com o que a natureza nos trará, estejamos nós a espera deles ou não, a vitória será completa, pois nenhum exército marcha na Macedônia, sem ser engolido por ela... deixai que eles venham até nós, prepare sua armada e siga minhas ordens, pois Eu estarei no comando do exército e combaterei convosco seja aonde for.


Todos os homens que estavam naquela sala gritaram de entusiásmo ao escutar tais palavras do Rei. Ynos por sua vez, calou-se e Milo, não hesitou em fazer o mesmo, Terzis havia dito tudo o que lhe era necessário, e se o próprio Rei estaria em combate, o que lhes seria obrigação, senão atender as ordens dele.



Dias depois daquela reunião, reuniram-se Perseas, Ynos, Terzis, Milo e outros homens da armada. Terzis, o mais antigo General de Felipe quando ainda era Rei, tomou a voz e não poupou críticas a Perseas sobre suas decisões, Perseas era ainda um garoto e não havia entrado em combate senão sob a proteção de Terzis e Ynos, agora desejava como Rei, comandar um confronto que poderia terminar com as mais extremas consequências. Todos os esforços de Ynos e Milos para treinar e alinhas as tropas haviam sido em vão, sua tática de combate seria mudada de ultima hora por pura arrogância de seu Rei.

Não havia nada mais a ser dito... Terzis, juntou as palavras e tentou tirar a venda de orgulho dos olhos de Perseas, mas sem qualquer sucesso. Nos dia em que antecedeu-se a batalha, Terzis fora preso por ordem de Perseas, pois ninguem deseja combater sob o comando de alguém que não sabia comandar, e todos clamavam por Terzis.

...

Domingo, 25 de Maio de 2008

Já fomos guerreiros.


Havia um tempo, em que por definição, alguns homens eram tratados com extremo respeito
desde o seu berço, eram os filhos dos bravos, e assim como seus pais e os pais de seus pais,
carregariam tão breve, o fardo do dever, a necessidade da coragem e os valores mais tenazes. de
Força e Sacrifício. Alguns de fato, sucumbiam pela vida de regalias e prazeres a disposição,
outros, enfadados pelas facilidades de suas condições, evitavam as leviandades, recolhendo-se a
algo que não possuiam, ao qual não foram destinados, o culto a sabedoria. Outros ainda além, experimentavam da sabedoria, desde o berço, e ao constatar tal prodígio os anciões davam-lhe o poder do exército, eram conhecidos como Generais. Possuiam a mais completa noção da arte da guerra, pois dentre todos os outros, possuia o dom do entendimento desde sua infância, aliavam a razão de suas vidas e de seus deveres, sua filosofia, à arte de combater para proteger seu povo. Eu conheci muitos Generais, uns dignos do poder e da posição, outros, aproveitadores das sortes do destino... No auge do seu poder, em suma, caiam no mais cego orgulho e arrogância, desprezavam todos os inimigos pela escolha óbvia destes, de apenas desejar a paz.
Todo homem cai por sua cegueira, e suas imoralidades... nada é em vão, e nenhuma ofensa
é perdoada sem o devido arrependimento e resignação, o que não acontece regularmente com os
homens da guerra. Uma lição a eles, deve ser dada muitas vezes, afim de que, compreendam que não há ação sem reação, e que as circunstâncias da vida, como o destino de um exército, é tomada pela razão de seus objetivos, não há nobreza em combater sem propósito, a covardia está no excesso de crueldade contra o próximo. Ví muitos cairem desta forma, Reis, Imperadores e Generais cobiçosos por manter seus nomes na eternidade, massacraram seu próprio povo e a vida de milhões de simples pessoas que ... pelo desejo egoísta de entrar para a história da humanidade.
Todos eles, agora, são apenas pó, seu nome ecoa, como ecoa o nome de qualquer outra pessoa, seus feitos estão registrados apenas na lei de ação e reação, universal, que infalivelmente cumpre todas as justiças feitas em corpo e em alma... Certas vezes, perguntei a mim mesmo, o porquê de certas coisas na minha vida, no meu destino, obtive em seguida a resposta por uma simples reflexão... os atos indignos do passado retornaram no agora contra mim. Arrependido e resignado, fui absolvido de muitos, pois consegui o sincero perdão, outros, os mais cruéis, pago em pequenas porções, suporto o peso das minhas dores nos ombros, e pela misericórdia do Mestre, nunca carreguei um fardo mais pesado que meus ombros poderiam suportar. As vezes se fraquejo, é por minha covardia, preguiça e acomodação... somos fortes, muito fortes, além do que qualquer mente poderia imaginar... mas só quando realmente queremos, a somos demasiadamente acomodados pra querer de fato.
Quer saber porque as chagas te afligem? seja pela doênça, seja pela ausência do encontro
com a paz a todo instante... seja pela solidão, seja pela perda de quem se gosta, ou admira ou
se ama... seja pela depressão sem motivo, seja pela extrema dificuldade em conquistar as coisas
sem a menor importância, tal que a qualquer outra pessoa seria banal...
Procure o verme dos vicíos, do passado que remanescem ainda hoje em você, trate-os,
esforçando-se para arrepender-se humildemente a recuperar o tempo perdido trabalhando para o bem do próximo, de alguma forma... exercitando seu espírito, afinal... é com trabalho que saudamos as nossas dívidas.

ARETÉ!

Força e Coragem Homens!


Entre os dedos, a terra, tão sem significância para muitos homens... mas, tão importante para
nós, aqueles que a defenderam. Ao final, o nosso destino corporal é sempre o mesmo... a terra e
o pó! mesmo depois de anos na erraticidade, acreditando ainda possuir as regalias da vida
militar...

Como é triste ser pretensioso, quão decepcionante é ser arrogante, depois que o poder se vai, a
humilhação perante aos outros e principalmente a sí mesmo, é como uma saraivada de flechas
somente em sua direção... desesperador!!!!


Sexta-feira, 23 de Maio de 2008

A alma das andorinhas.

Alma das Andorinhas....


Eu não sei dizer para onde vão... as almas das andorinhas, eu não sei... dizer.

O perfume das flores não viaja contra o vento – seja ele de tagara ou mallika, ou mesmo da árvore de sândalo. Mas a fragrância dos bons se irradia mesmo contra o vento. A fragrância do ser humano bom permeia todos os seus caminhos.

Longa é a noite para quem não consegue dormir. Longo é um yojana (distância de quinze quilômetros) para quem está cansado. Longo é o caminho do nascimento e da morte para o tolo que não conhece a verdadeira lei.


Para onde vão as tristezas e alegrias?

No caminho árduo de crivos e espinhos, o corpo exausto, ferido pelo calor implacável do sol que torna possível a vida, pisando na terra em chamas, ferindo os pés tornando os joelhos frágeis pelo esforço de carregar todo o peso do peito, dos braços, das costas e o mais torturante... o peso da consciência, da cabeça, da mente. Nos vemos muitas vezes em circustâncias crucificantes.

Este mundo não é de felicidade... o que temos em mãos, é a habilidade para implorar a benevolência divina, por coragem para enfrentar as provações que não podem ser removidas do nosso caminho... forças para enchugar as lágrimas das dores que precisam ser sentidas.

Não aspire por felicidade neste mundo, mantenha-se firme ansiando pela sua morte, afinal, a morte nada tem de misteriosa para o hábil homem que compreende a sua origem, sua vida e seu destino. A verdade não está escondida em livros escritos no embasamento de assuntos ocultos, mas a melhor resposta está dentro de sí mesmo. Não pergunte a outrém, mais pergunte a si mesmo e veja a coerência das circunstâncias.




Não sinta vergonha de se sentir perdido... nem a todos a verdade pode ser revelada a qualquer hora, precisamos de ante mão amadurecer o suficiente para deixar os preconceitos de lado, e possuir boa índole e sincera humildade para compreender coisas que estão além de nossa compreensão pueril e sádica.


Força Homens!

Agradeçimentos ao Site Filosofia Esotérica
www.filosofiaesoterica.com

E ao meu amigo e professor, Rai da Sala Filosofia Espírita.

Raimundo de Moura Rêgo Filho.
Fundador da Sala Filosofia Espírita - Pal Talk.

Liliane & Moura Rêgo
Atena & Lion
Rio de Janeiro RJ Brasil

Se você tem alguma dúvida sobre os artigos e estudos Sala Filosofia Espírita, envie sua pergunta ou comentário para: atenaelion@bol.com.br